No começo, logo depois da fatídica notícia, fiquei passada,
implorei...mas não muito.
Engraçado, quando estava a caminho de lá e imaginando, muito
remotamente, que isso poderia acontecer, achei que entraria em pânico. Não.
Isso prova o quanto a gente não se conhece, só passando pelo fogo para saber.
Saí da delegacia cumprimentando os funcionários como se nada tivesse
acontecido. Não me reconheci. Acho que foi uma defesa, uma maneira de manter a
mente calma, sem entrar em colapso.
Logo em seguida, mas precisamente no portão, virei para o
advogado que me acompanhava e perguntei: e agora? E ele: você vai fugir.
Foi nesse momento que começou a minha sina.
Aquela nuvem negra que andava pairando em cima de mim
resolveu ficar. Não só ficar. Ela resolveu virar uma tempestade horrorosa.
Tempestade com direito a raios de fogo.
Só no caminho de casa que o pânico esperado apareceu. Teria
que fugir! Pra onde? Como?
Quem me abrigaria? Hotel não dava, uma fugitiva num hotel?
Eu não estava em um filme de ação.
Cheguei em casa, fiz minha mala, com as coisas mais variadas
e esdrúxulas que alguém poderia colocar dentro. Mas só fui perceber quando
cheguei em meu destino e abri, um pouco mais calma.
Enfim, sai de casa, isso em 15 ou 20 minutos no máximo. A
tempestade que há 15 dias estava se armando em cima de mim tinha resolvido
desabar. Peguei a estrada. Eram exatos 163 km da minha casa até o meu refúgio.
Dei uma parada na cidade ao lado, na casa de uma amiga. Ela chegava do
trabalho. Eu tinha que espalhar aquele terror todo, senão ia explodir sozinha.
Coitada, ela já estava nessa maré ruim comigo desde o começo. Parei apenas pra
tomar um copo de água e um pouco de fôlego pra seguir. Espalhei meu terror e
fui.
A viagem foi um misto de pânico, choro compulsivo, tentativa
de controle, oração, pânico.
Já era noite. Meus olhos não viam mais nada. A estrada era
até que boa, mas os faróis da pista contrária me cegavam. Ao chegar eu não
tinha idéia de como eu havia conseguido. Foi uma sensação de alívio e tensão.
Aconchego e medo. Muito medo. Só hoje
consigo entender.
Dentro desse universo paralelo em que convivo a quase dois
anos e meio e que ninguém quer chegar perto (a penitenciaria) existem seres
humanos desorientados, que muitas vezes não tiveram oportunidade nenhuma na
vida. Cresceram dentro de uma cadeia, visitando o pai, o avô. Pessoas amadas
por eles, que por mais que tivessem errado são da sua família. E o que nós
somos senão o que aprendemos? Nossa base é estabelecida nos primórdios da nossa
vida. Isso é sim uma cadeia, uma cadeia destrutiva em que nada se aprende de bom
pelos os que ali ingressam.
Tenho visto que o sistema (ele todo, não só o penitenciário)
apenas quer se livrar dos incômodos. Que ensinar? Que reabilitar? Que dar outra
chance? São casos perdidos! Jovens e viciados em drogas pesadas em sua maioria,
guardados. Fomentando uma violência cada vez maior.
Ouvi uma entrevista do ator Wagner Moura em que ele dizia
que deveriam parar de construir cadeias e começar a construir centros de
reabilitação para esses jovens drogados. Concordo em número, gênero e grau.
Alem do que pessoas boas são presas todos os dias. São sim!
É fato! Desde maconheiros, que tinham seu estoque guardado na geladeira, mas trabalhavam pesado e com honestidade, até
pais de família desempregados que não tinham como pagar a pensão, perseguidos
por ex-companheiras enraivecidas.
Deixando a modéstia de lado, sou uma pessoa boa. Trabalho,
pago minhas contas, sou gentil, amo minha família, tenho amigos (ótimos amigos,
diga-se de passagem), reciclo o lixo, não jogo óleo na rede de água, faço
caridade, amo os animais. Ajudo no que posso, dentro das minhas possibilidades,
qualquer um que me peça ajuda. Pô! Eu sou do bem! Mas por um triz não fui
presa. Por um triz não fiquei guardada, como se fosse prejudicial pra
sociedade. Eu era mais um número na pilha de processos.
O fim ainda não chegou. A tempestade se dissipou, mas ainda
vivo num inverno. O pior passou, fui absolvida, mas a chuva continua. Alguns
dias com mais intensidade, outros até aparece um sol, mas esses são raros. Mas
vai acabar, está chegando ao fim.
Disso tudo eu pude tirar que nesse espaço em que habitamos
não existe um ser que seja perfeito. Senão aqui não estaria. Pude tirar que
mais vale ser magoado que magoar. Dói muito mais magoar alguém. Que amigos
verdadeiros existem sim. Eles se revelam no meio da sua tempestade pessoal.
Surgem como se fossem raios de luz no meio do breu total. Que a humildade e a
gentileza quebram a perna de qualquer pessoa mal educada que atravesse o seu
caminho. Que a plantação é opcional, mas a colheita é obrigatória. Que as
tempestades aparecem em nossas vidas pra nos lapidar. Somos todos diamantes
brutos, lapidados pela bendita oportunidade da reencarnação. E principalmente
que Deus é infinitamente justo. E o justo é bom.






